GCM de Campo Grande recebe investimentos-Dois agentes da Guarda Civil Metropolitana de Campo Grande (MS) aparecem de costas, uniformizados e de colete, ao lado de uma viatura oficial azul e amarela estacionada em via urbana movimentada.

Tanhaçu: tudo o que a Polícia Municipal não pode ser

Apresentação da futura Guarda Municipal no interior da Bahia levanta questionamentos sobre formação, critérios de ingresso e profissionalização da segurança pública municipal

O fortalecimento das Guardas Municipais tem sido uma das maiores transformações recentes da segurança pública brasileira. Nos últimos anos, decisões do Supremo Tribunal Federal, a consolidação do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e a ampliação das atribuições municipais deram novo protagonismo a essas corporações.

Mas o caso de Tanhaçu, município do sudoeste da Bahia, mostra justamente o risco que especialistas e integrantes da própria segurança pública apontam há anos: a expansão institucional sem critérios claros de profissionalização.

Vídeos divulgados nas redes sociais durante um evento de apresentação da futura Guarda Municipal do município provocaram questionamentos sobre a forma como a corporação está sendo estruturada. Nas imagens, é possível observar agentes realizando atividades de ordem unida, utilizando uniformes sem padronização aparente e demonstrando dificuldades de alinhamento operacional durante a formação pública apresentada à população.

O problema, porém, não está apenas na estética ou na execução dos movimentos.

A principal preocupação é outra: quais critérios foram utilizados para compor essa futura força municipal?

Seis agentes da Guarda Civil Metropolitana de Campo Grande (MS) posam uniformizados, com boinas azuis e coletes táticos, perfilados em frente a uma viatura oficial da corporação estacionada.
GCM Campo Grande Divulgação

A dúvida que ninguém respondeu

Reportagens publicadas por veículos regionais informam que a Prefeitura de Tanhaçu vem promovendo treinamentos e capacitações para implantação da Guarda Municipal, contando inclusive com participação de representantes da Polícia Militar e da Polícia Civil da Bahia.

Entretanto, uma questão central continua sem resposta pública clara.

Houve concurso público para ingresso desses integrantes?

Essa dúvida ganhou força após críticas divulgadas em publicações locais que relatam questionamentos de moradores sobre a formação da nova equipe sem edital público ou processo seletivo conhecido. (Magistrar Educacional)

Até o momento, não foram encontrados elementos públicos que permitam afirmar irregularidades ou ilegalidade na composição da corporação. Também não há decisão judicial apontando qualquer fraude ou ilegalidade no processo.

Em uma instituição que pretende exercer atividades ligadas à segurança pública, a transparência sobre ingresso, formação e critérios técnicos não deveria ser uma exigência básica?

Segurança pública não pode ser improviso

A discussão vai além de Tanhaçu.

O crescimento das Guardas Municipais fez surgir um desafio nacional: evitar que corporações sejam criadas apenas para gerar impacto político ou marketing administrativo.

Enquanto cidades maiores investem em cursos operacionais, treinamento continuado, corregedorias, ouvidorias e padronização técnica, diversos municípios pequenos ainda enfrentam dificuldades estruturais para manter uma guarda profissionalizada.

O contraste é visível.

Em municípios onde as guardas passaram por processos formais de formação, há treinamentos de tiro, defesa pessoal, técnicas de condução de detidos, controle operacional e capacitação continuada.

Já em Tanhaçu, o vídeo que circula nas redes gera justamente a percepção oposta.

As imagens levantam questionamentos sobre preparo físico, padronização institucional e treinamento adequado para uma atividade que envolve contato direto com a população e potencial atuação em situações de risco.

O perigo da politização

Existe outro fator que torna o tema ainda mais sensível.

A segurança pública exige confiança institucional.

Quando surge a percepção de que integrantes podem ter sido escolhidos por proximidade política, indicação pessoal ou critérios não transparentes, o dano não atinge apenas a administração municipal. Ele atinge a credibilidade da própria corporação.

O Brasil possui uma longa tradição de profissionalização por meio do concurso público justamente para reduzir favorecimentos e fortalecer critérios técnicos no acesso às carreiras estatais.

Por isso, a discussão não deve ser tratada como mera disputa política local.

Quando uma corporação armada ou com funções de segurança pública nasce cercada de dúvidas sobre recrutamento e formação, toda sua legitimidade institucional passa a ser questionada.

A armadilha da “polícia de fachada”

Nos últimos anos, as Guardas Municipais foram reconhecidas como integrantes do Sistema Único de Segurança Pública. Esse reconhecimento trouxe responsabilidades maiores, mas também exigências maiores.

Uma guarda municipal não pode existir apenas para desfilar em eventos públicos, posar para fotografias institucionais ou transmitir sensação visual de autoridade.

A legitimidade de uma corporação nasce de elementos concretos:

  • seleção transparente;
  • treinamento técnico;
  • controle disciplinar;
  • corregedoria;
  • formação continuada;
  • capacidade operacional real.

Sem isso, o risco é criar estruturas que aparentam ser forças de segurança sem necessariamente possuir os requisitos mínimos esperados de uma instituição pública dessa natureza.

O que Tanhaçu representa

O Brasil vive um processo acelerado de fortalecimento das Guardas Municipais. Em muitas cidades, isso ocorre com planejamento, investimento e profissionalização.

Algumas administrações estão enxergando a criação dessas corporações apenas como ativo político ou ferramenta de visibilidade institucional.

A população precisa saber quem são os integrantes, quais critérios foram utilizados para ingresso, qual formação receberam e quais mecanismos de controle existirão sobre a atuação da corporação.

Banalizar a Polícia Municipal, tão necessária no atual cenário brasileiro, não nos parecer ser a direção correta.

QSL News. Polícia em foco.

Rádio Corredor

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Reconhecimento sem autonomia?

A mais recente discussão sobre as Guardas Municipais no Supremo Tribunal Federal mostra que o reconhecimento institucional da…

31/05/2026 - 09h46

A Guarda Municipal mais antiga do Brasil e a última a portar arma

Guarda Municipal do Recife inicia processo de armamento e amplia atuação no policiamento urbano após mais de um…

28/05/2026 - 15h20

Guardas Municipais operam abaixo do efetivo ideal nas capitais brasileiras

Guardas municipais enfrentam déficit de efetivo nas capitais, ampliam atuação na segurança urbana e pressionam por concursos públicos…

21/05/2026 - 13h11

Guarda Municipal de POA agora é CGM

Porto Alegre transforma Guarda Municipal em Guarda Civil Metropolitana com 1.200 cargos, concurso, curso de formação e carreira…

09/05/2026 - 17h27