PCMG: sem policiais e sem reajuste-Policial civil de Minas Gerais de costas, com viatura da Polícia Civil estacionada ao fundo em área urbana

PCMG: sem policiais e sem reajuste

Polícia Civil de Minas Gerais vive crise: déficit de pessoal e perdas salariais.

Efetivo em queda e déficit alegado pela categoria.

Desde 2021, a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) acumula graves perdas no seu quadro funcional. Apesar de haver 1,4 mil nomeações no período, cerca de 1,3 mil servidores deixaram os quadros, o que resulta num saldo real de apenas 82 novos agentes efetivados.

Hoje, a PCMG possui um efetivo de pouco mais de 11,2 mil servidores, mas o Sindicato dos Escrivães de Polícia Civil no Estado de Minas Gerais (Sindep/MG) estima que o número ideal seria de 17 mil, de modo a recompor adequadamente as deficiências operacionais do órgão. Isso representa um déficit estimado de 35%.

Desvalorização, abandono estrutural e falta de planejamento

As causas desse cenário, segundo o Sindep/MG, incluem:

  • A perda de servidores por exoneração voluntária motivada pela falta de condições trabalhistas e reconhecimento.
  • A ausência de planejamento de reposição: aposentadorias e desligamentos são previsíveis, mas não há cronograma firme para nomeações que compensem essas vacâncias.
  • Desvalorização salarial: entre 2015 e 2025 houve uma perda de cerca de 44% do poder de compra dos policiais civis em Minas; apenas nos últimos quatro anos (governo Romeu Zema) se atribui parte desse impacto — cerca de 11% do total da perda.

Além disso, há queixas de condições físicas inadequadas das delegacias, imóveis alugados ou cedidos por prefeituras com infraestrutura degradada, falta de segurança, e casos de assédio institucional.

Delegacia de Polícia Civil de Turmalina (MG), fachada do prédio com placas de identificação e um policial entrando pela porta principal.
SINDEP-MG Divulgação

Impactos sociais e de segurança pública

A combinação de efetivo reduzido, salários em queda real e estruturas precárias impacta diretamente a segurança pública. Segundo relatório do Ministério Público com a PUC-Minas, em 2024 Minas Gerais teve aumento de 47% no número de mortes em ações policiais.

Enquanto isso, nacionalmente, o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicava uma queda de ~5,4% nas mortes violentas em 2024; Minas registrou aumento de cerca de 5% no mesmo período.

Também são citados efeitos negativos para a população: queda na qualidade das investigações, atrasos ou falhas nos inquéritos, sensação de insegurança, e em casos extremos, criminalidade que voltaria a subir em áreas antes relativamente controladas.

Campanha Salarial 2025: reivindicações da categoria

Paralelamente à crise de pessoal, o Sindep/MG (Sindicato dos Escrivães de Polícia Civil no Estado de Minas Gerais) realizou uma Pesquisa sobre a Campanha Salarial 2025, com 274 servidores da PCMG participando, entre abril e maio.

Perfil e referências salariais desejadas

  • Dos participantes: 74,6% são escrivães, 22,3% investigadores, 2,9% delegados.
  • Mais da metade (53,7%) acredita que a remuneração da Polícia Civil de MG deveria ser comparada à de outras instituições policiais com boa valorização, como a Polícia Federal, a PC do Distrito Federal, e Polícias Civis de estados como Amazonas, São Paulo e Santa Catarina. Também houve menção a cargos do Judiciário e do Ministério Público como parâmetros salariais a serem considerados.

Valores propostos pela categoria

  • Para base (escrivães e investigadores), a média sugerida é de R$ 9.291,95.
  • A mediana ficou em R$ 8.500.
  • Os valores mais frequentes citados foram entre R$ 8.000–8.999 (74 menções), R$ 7.000–7.999 (52 menções) e aproximadamente R$ 11.000 (43 menções).

Os critérios considerados para essas expectativas incluíram: equiparação com peritos criminais; perdas inflacionárias acumuladas (~45%); complexidade e risco das funções; comparação com outras carreiras de nível superior na segurança pública e no Judiciário.

Outras demandas além do salário

Além da recomposição salarial imediata e contínua, os servidores destacaram:

  • A unificação das carreiras de base (escrivão e investigador);
  • Melhoria das condições de trabalho e infraestrutura das delegacias e centrais;
  • Saúde e qualidade de vida, com atenção especial ao assédio e ao adoecimento mental;
  • Benefícios complementares: auxílio saúde, fardamento, adicional de periculosidade, aumento de efetivo, capacitação, fortalecimento institucional.

Quanto às estratégias para dar visibilidade e força às reivindicações, foram propostas ações jurídicas e legislativas, mobilização interna com assembleias e “greves brancas”, além de comunicação ampla para engajar a opinião pública e articulação política junto a deputados e governo estadual.

Déficit, crise institucional e mobilização salarial

Os dados revelam que o problema de efetivo e o desgaste funcional e salarial não são aspectos isolados: juntos, eles alimentam uma espiral negativa:

  • Baixo efetivo implica sobrecarga de trabalho, condições ruins, afastamento ou saída voluntária;
  • Perda no poder aquisitivo reduz o estímulo para permanência na carreira;
  • Estrutura precária e desgaste psicológico contribuem para o desestímulo profissional;
  • A sociedade sofre com serviços de investigação menos eficazes, aumento da criminalidade e sensação de impunidade.

Fundada em 1808 como parte do processo de organização da Justiça Criminal no Brasil, a Polícia Civil de Minas Gerais consolidou-se como uma das mais tradicionais do país.

Ao longo das décadas, construiu reputação na investigação, inteligência e no combate à criminalidade organizada.

Mais que uma instituição policial, tornou-se um pilar da cidadania, responsável por garantir direitos, apurar delitos e dar respostas à sociedade. Sua valorização é, portanto, condição essencial para o fortalecimento da segurança mineira.

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