Sofreu golpe digital? Ele foi investigado? Pessoa com capuz escuro cobre o rosto enquanto manuseia um celular diante de um notebook, em ambiente de pouca luz, representando atividade clandestina ligada a crimes virtuais ou golpes digitais.

Sofreu golpe digital? Ele foi investigado?

Golpe digital. Só quando tem famoso? A seletividade nas investigações de golpes digitais no Brasil

A explosão dos golpes digitais

Os golpes digitais deixaram de ser uma exceção e se tornaram regra no Brasil.

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, são registrados quatro golpes de estelionato por minuto no país. Isso significa que, enquanto o leitor percorre este parágrafo, dezenas de brasileiros já terão sido lesados.

O problema atinge todas as classes sociais, em diferentes formatos: desde falsas promoções, clonagem de cartões e perfis falsos em redes sociais, até fraudes mais sofisticadas com uso de inteligência artificial e deepfakes.

Esse dado serve como ponto de partida para discutir a atenção seletiva que parte das autoridades e da imprensa dedica a determinados golpes. Em meio a um universo tão vasto de vítimas, quantos golpes são realmente investigados?

Mulher loira de cabelos ondulados usa roupa esportiva preta em ambiente externo com céu nublado ao fundo
Divulgação Vaara

Gisele Bündchen

A Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagrou uma operação contra um esquema que utilizava vídeos falsos da modelo Gisele Bündchen.

Com deepfakes e campanhas enganosas, os criminosos movimentaram mais de R$ 20 milhões em golpes pela internet. O caso ganhou grande repercussão justamente por envolver uma celebridade global, além de um montante milionário.

A operação é, sem dúvida, importante. Mostra que a polícia está atenta a novas modalidades de crime e que o combate a deepfakes não pode ser negligenciado.

Porém, também expõe um contraste: enquanto milhões de brasileiros são vítimas diariamente, sem conseguir registrar boletim de ocorrência ou ver suas queixas avançarem, quando há um rosto famoso envolvido, a investigação ganha prioridade e repercussão nacional.

A massa invisível de vítimas

O contraste é reforçado quando lembramos que, em 2024, o Brasil já registrava um crescimento de 408% nos crimes de estelionato (golpe digital) em apenas seis anos, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 Isso coloca o país em uma situação alarmante, em que praticamente todo cidadão conhece alguém que já foi vítima de fraude digital.

Mas, apesar do volume assustador, nem todos os casos recebem atenção investigativa proporcional.

Para a maior parte das vítimas comuns, o caminho é burocrático, lento e muitas vezes sem resultado.

Muitos desistem de registrar ocorrência, cientes de que dificilmente haverá investigação. Enquanto isso, esquemas de maior visibilidade — como os que envolvem artistas, políticos ou atletas — recebem operações robustas e cobertura intensa.

Visibilidade midiática

Parte da explicação está na lógica midiática. Casos com rostos conhecidos geram maior repercussão pública, pressão social e, consequentemente, reação das autoridades.

Isso cria uma hierarquia invisível de prioridades: crimes contra celebridades ou com grandes cifras atraem maior atenção, enquanto a fraude que consome a aposentadoria de um idoso em uma cidade do interior passa despercebida.

Esse padrão de seletividade não é exclusivo do Brasil, mas aqui ele ganha contornos mais graves diante da escala do problema. Se são quatro golpes por minuto, a seletividade das investigações significa que milhões de brasileiros comuns seguirão sem resposta para os crimes que sofrem.

Capacidade das instituições

Outro ponto relevante é a capacidade das instituições. Polícia Civil, Polícia Federal e Ministério Público enfrentam limitações de recursos humanos e tecnológicos para investigar todos os golpes.

Assim, escolher casos emblemáticos — sobretudo aqueles que envolvem figuras públicas ou cifras milionárias — acaba sendo uma forma de “otimizar” o impacto das operações.

 Ao derrubar uma quadrilha que usa a imagem de uma celebridade, a mensagem transmitida é mais forte, mesmo que isso não alivie a dor da maioria das vítimas.

Mas a questão permanece: será que essa estratégia não cria uma percepção de impunidade para os criminosos que lesam pessoas comuns todos os dias?

Um desafio de escala

O desafio está na escala. O Brasil vive uma epidemia de golpes digitais, e apenas uma estratégia nacional robusta pode dar conta do problema. Isso inclui investimento em tecnologia para rastrear fraudes, maior integração entre polícias, além de campanhas educativas para que os cidadãos identifiquem tentativas de fraude.

A prioridade não deveria ser apenas proteger celebridades ou preservar a imagem de figuras públicas. A prioridade deveria ser o cidadão comum, que perde a poupança de uma vida inteira em um golpe de WhatsApp, ou o trabalhador que tem sua conta bancária esvaziada por criminosos digitais.

Enfrentar a realidade

Casos como o da modelo Gisele Bündchen são importantes, mas não podem ser a régua pela qual o Brasil mede sua capacidade de combater golpes digitais. O país precisa enfrentar a realidade: são quatro golpes por minuto, e enquanto a atenção continuar voltada apenas para os episódios com maior repercussão, milhões de vítimas seguirão invisíveis.

No fim, a verdadeira justiça será alcançada quando cada golpe — seja de milhões, seja de alguns poucos reais — for tratado com a mesma seriedade pelas instituições brasileiras.

QSL News: polícia em foco.

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