Promoções por bravura na Polícia Civil do RJ: mérito, distorção ou privilégio?
O modelo de promoções por bravura, previsto em lei para reconhecer atos heroicos de policiais, tornou-se a regra na Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCRJ). Segundo levantamento do gabinete do deputado estadual Flávio Serafini (PSOL), entre janeiro de 2019 e 28 de agosto de 2025 foram registradas 1.346 promoções por bravura, o que equivale a uma média de 1,57 promoções por dia.
A explosão das promoções
O número representa quase duas promoções a cada três dias, um patamar muito distante do que se via historicamente. Antes desse período, a média era de apenas cinco promoções por ano.
Esses dados foram apresentados em audiência pública da Comissão de Servidores Públicos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), no dia 28 de agosto de 2025, e expõem uma transformação profunda na dinâmica da carreira policial.

Da exceção à regra
O deputado Serafini argumentou que a promoção por bravura, que deveria ser exceção, passou a ser a forma dominante — e, em alguns casos, a única — de ascensão na carreira. “Transformaram o instituto em atalho, desprezando os critérios tradicionais de antiguidade e merecimento”, afirmou o parlamentar.
Na prática, policiais que aguardam progressão pela fila normal enfrentam desmotivação, enquanto colegas são alçados a patamares superiores em tempo reduzido. Essa inversão gerou insatisfação interna e questionamentos externos sobre transparência e justiça.
Vozes da corporação
Durante a audiência, o presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Rio de Janeiro (Sindelpol-RJ), Leonardo Affonso Dantas, foi categórico: “A promoção por bravura deveria reconhecer feitos heroicos, como salvar vidas sob risco extremo. Hoje, virou um mecanismo subjetivo e arbitrário, que distorce a carreira e sobrecarrega quem segue esperando pela via legal”.
Ele também alertou que a banalização desse tipo de promoção fragiliza o valor simbólico do ato de bravura e alimenta divisões dentro da corporação. “Se todo ato operacional for enquadrado como bravura, o conceito perde o sentido”, concluiu.
OAB alerta para impactos na saúde mental
Outro ponto levantado veio do advogado e ex-delegado Orlando Zaccone, representante da OAB-RJ. Ele destacou que a falta de critérios claros e de um plano de carreira estruturado não apenas prejudica a progressão profissional, mas também compromete a saúde mental dos policiais.
Segundo Zaccone, a instabilidade no processo e o receio de retaliações geram insegurança emocional. “O policial se sente em permanente disputa, sem saber se será avaliado de forma justa. Isso provoca desgaste psicológico e afeta a qualidade do serviço prestado à sociedade”, disse.
Parlamentares defendem mais transparência
Deputados como Luiz Paulo (PSD) e Marcelo Dino (União) reforçaram a necessidade de se rever o sistema. Ambos lembraram que a Polícia Civil atua de forma coletiva, em investigações complexas, o que torna difícil atribuir bravura individual a determinados agentes.
“Não podemos aceitar um processo que parece ter critérios obscuros. É preciso transparência, regras objetivas e respeito à coletividade da instituição”, afirmou Luiz Paulo. Já Marcelo Dino chamou atenção para a importância de proteger a credibilidade da Polícia Civil.
Secretaria de Polícia Civil
A Secretaria de Polícia Civil respondeu às críticas com uma nota oficial. No comunicado, afirmou que todas as promoções seguem os trâmites legais e que as decisões são tomadas pelo Conselho Superior de Polícia, composto por 11 membros, após análise criteriosa de sindicâncias internas.
A pasta também ressaltou que parte do aumento nas promoções se deveu ao represamento de processos em razão do Regime de Recuperação Fiscal. Segundo a Secretaria, pedidos que ficaram parados durante anos foram liberados recentemente, o que ajuda a explicar a concentração num curto período.
Ex-secretários ouvidos por veículos de imprensa confirmaram que, em suas gestões, negaram diversos pedidos, justamente pela necessidade de cautela, mas reconheceram que o represamento criou um acúmulo que explodiu nos últimos anos.
Insatisfação
O debate sobre promoções por bravura não se limita a números ou procedimentos internos. Ele expõe um dilema maior: como equilibrar o reconhecimento de atos excepcionais com a preservação de critérios de carreira claros e justos?
Para entidades sindicais e parlamentares, a banalização desse tipo de promoção cria privilégios, mina a moral dos servidores e enfraquece a legitimidade da Polícia Civil. Para a cúpula da corporação, trata-se de um mecanismo legal e regulado, usado para corrigir distorções acumuladas.
Plano de Carreira
A explosão nas promoções por bravura escancarou uma fragilidade estrutural: a ausência de um plano de carreira sólido e transparente. Quando a exceção vira regra, a meritocracia perde força e abre espaço para disputas internas e desconfiança social.
Mais do que revisar números, o desafio agora é redefinir critérios claros, proteger a saúde dos agentes e garantir que o reconhecimento de bravura mantenha seu verdadeiro valor: premiar atos extraordinários em defesa da sociedade.
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Agenda do Poder: https://agendadopoder.com.br/promocoes-por-bravura-na-policia-civil-do-rj-disparam-e-chegam-a-quase-50-por-mes/
QSL News: polícia em foco.


















