O caos da greve da Polícia Militar no Espírito Santo: quando a ausência do Estado abre espaço para o crime
Em fevereiro de 2017, o Espírito Santo se transformou em palco de uma das maiores crises de segurança pública da história recente do Brasil.
A paralisação da Polícia Militar ocorreu a partir da mobilização de familiares, que bloquearam a saída dos batalhões em protesto. As principais reivindicações giravam em torno de reajustes salariais, melhores condições de trabalho e valorização da categoria, que há anos se queixava de defasagem nos vencimentos.
Ante a ausência de policiamento…
Embora os próprios policiais não tenham oficialmente declarado greve, o fato é que as ruas ficaram sem patrulhamento.
A ausência de policiamento ostensivo teve efeito imediato e devastador: a criminalidade tomou conta das cidades capixabas, principalmente na Grande Vitória.
A escalada
A partir de 4 de fevereiro de 2017, o Espírito Santo mergulhou em dias de pânico. Sem polícia nas ruas, arrastões, assaltos e homicídios se multiplicaram.
Em apenas uma semana, mais de 200 pessoas foram assassinadas — uma cifra impressionante se comparada às estatísticas regulares do estado.
Comércios foram saqueados em plena luz do dia, supermercados invadidos por multidões em busca de produtos e até mesmo shoppings centers registraram depredações. O transporte público foi interrompido, escolas suspenderam suas atividades e a sensação de insegurança atingiu níveis inéditos.
A violência não se restringiu a furtos e roubos. Moradores de vários bairros relatavam toques de recolher informais e a atuação de criminosos armados, que se aproveitaram do vácuo de poder.

Forças Armadas
Diante do colapso, o governador Paulo Hartung acionou o governo federal. O então presidente Michel Temer autorizou a atuação das Forças Armadas e da Força Nacional de Segurança Pública para conter a escalada criminosa.
Aproximadamente 3 mil militares foram deslocados para o Espírito Santo, com a missão de ocupar pontos estratégicos e restabelecer minimamente a ordem.
A presença das tropas federais foi fundamental para reduzir os saques e as ações mais violentas.
No entanto, o processo de normalização foi lento. Muitas cidades ainda viveram dias de medo mesmo após a chegada das forças federais, já que a população desconfiava de sua real capacidade de garantir a segurança plena sem a Polícia Militar em ação.
A crise institucional
A paralisação durou 21 dias, deixando marcas profundas na sociedade capixaba. As consequências ultrapassaram o campo da segurança pública: a economia local sofreu com os prejuízos dos saques, comerciantes contabilizaram perdas milionárias e a imagem do estado foi manchada nacionalmente.
No campo jurídico, diversos policiais foram processados por insubordinação e descumprimento do dever. As associações representativas da categoria alegaram que a mobilização era um reflexo de anos de descaso do poder público com as demandas da segurança.
Esse episódio também reacendeu o debate nacional sobre a proibição constitucional de greve para policiais militares.
De um lado, argumenta-se que o direito de greve é legítimo em qualquer categoria profissional; de outro, a ausência de forças de segurança representa um risco imediato à coletividade, como ficou comprovado no Espírito Santo.
Lições
O episódio da greve capixaba é um alerta claro sobre a importância da presença policial no dia a dia da população. Quando a força ostensiva se ausenta, ainda que por poucos dias, a criminalidade se multiplica e atinge patamares incontroláveis.
Não é por acaso que organizações criminosas buscam expandir seus domínios em locais onde o Estado é frágil ou ausente.
A raiz do problema
A greve da Polícia Militar no Espírito Santo escancarou a dependência da sociedade brasileira do policiamento ostensivo para manter a ordem mínima.
Quando esse pilar falhou, o resultado foi um mergulho no caos. Entretanto, é preciso reconhecer que a solução não pode se resumir ao reforço policial.
Nosso país convive com problemas estruturais de educação, civismo e respeito à lei.
A facilidade com que parte da população aderiu aos saques revela uma crise cultural e moral que não pode ser ignorada. O déficit educacional, a falta de valores sólidos e a normalização da “vantagem fácil” criam terreno fértil para que, em momentos de ausência do Estado, muitos optem pelo caminho do crime.
Por isso, mais do que fortalecer apenas as forças de segurança, é urgente que o Brasil invista em uma educação de qualidade, cidadã e ética, capaz de formar cidadãos que não vejam na ausência do policial a oportunidade de roubar, mas sim a chance de provar que podem viver em sociedade de maneira justa.
Esse é o grande desafio: não basta termos mais polícia, precisamos de mais sociedade — uma sociedade consciente, responsável e comprometida com a ordem, mesmo quando ninguém estiver olhando.
QSL News: polícia em foco.















