A imagem mostra um material institucional do Ministério da Justiça e Segurança Pública sobre a Plataforma Córtex, com os dizeres “Guardião do Brasil”.

Córtex: o PCC tinha acesso pleno

Córtex exposto: sistema de inteligência do Ministério da Justiça teria sido usado pelo PCC

Plataforma de inteligência

O Brasil vive um novo e preocupante capítulo na relação entre tecnologia e segurança pública. O sistema Córtex, uma das principais plataformas de inteligência do Ministério da Justiça, foi alvo de falhas de segurança que permitiram o acesso indevido por organizações criminosas, entre elas o Primeiro Comando da Capital (PCC).

A denúncia, revelada por veículos como a Gazeta do Povo, a Agência Pública e o The Intercept Brasil, aponta que informações sensíveis de milhões de brasileiros ficaram expostas, transformando uma ferramenta criada para combater o crime em um risco para autoridades e cidadãos.

Córtex - A imagem mostra a fachada do Palácio da Justiça, em Brasília.
MJSP Divulgação

O que é o Córtex

O Córtex foi desenvolvido como uma espécie de “cérebro digital” da segurança pública brasileira. Trata-se de uma plataforma que cruza dados de dezenas de bases oficiais e oferece acesso a milhares de câmeras espalhadas pelo país. Seu objetivo declarado é aprimorar investigações criminais, rastrear veículos, identificar padrões suspeitos e fortalecer a ação policial em tempo real.

Segundo a Agência Pública, mais de 55 mil agentes públicos de diferentes órgãos possuem logins no sistema, incluindo Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, polícias estaduais e secretarias de segurança. O escopo de acesso, no entanto, acabou se tornando amplo demais e mal controlado, abrindo brechas para abusos e invasões.

O que o sistema acessa

O poder do Córtex está em sua capacidade de integração. Reportagens apontam que o sistema cruza informações de mais de 35,9 mil câmeras de vigilância no Brasil, além de conectar bancos de dados sensíveis, tais como:

  • CPF, endereço, telefone e biometria;
  • Registros policiais, boletins de ocorrência e histórico criminal;
  • Dados de saúde do SUS, registros do Coaf e da Receita Federal;
  • Deslocamentos de veículos por meio de OCR em tempo real (leitura de placas);
  • Informações de voos de companhias aéreas e outros meios de transporte.

A amplitude desse acesso torna o Córtex uma ferramenta de enorme poder investigativo, mas também extremamente vulnerável caso utilizado de forma indevida — como apontam as denúncias recentes.

O uso criminoso pelo PCC

A maior preocupação revelada nas investigações é que logins e credenciais do Córtex teriam sido vendidos na internet ou acessados ilegalmente, permitindo que facções criminosas, em especial o PCC, utilizassem o sistema.

De acordo com a Gazeta do Povo, os criminosos monitoraram deslocamentos de autoridades, como juízes, promotores e até parlamentares.

O The Intercept reforça que dados pessoais e familiares de autoridades públicas também foram expostos. A situação é particularmente grave porque o PCC já havia demonstrado interesse em retaliar integrantes do sistema de Justiça, e o acesso ao Córtex oferecia meios para localizar alvos com precisão inédita.

Riscos à privacidade e à democracia

A Agência Pública destacou que o Córtex não exige justificativas específicas para consultas: um agente habilitado pode acessar dados sem precisar registrar formalmente o motivo. Esse ponto fragiliza os mecanismos de controle e aumenta o risco de desvios, espionagem e perseguições políticas.

Especialistas em proteção de dados e privacidade apontam que a falha estrutural no uso do sistema compromete tanto a segurança nacional quanto os direitos fundamentais dos cidadãos. O risco é duplo: de um lado, o crime organizado se beneficiando de informações de inteligência; de outro, a possibilidade de agentes públicos usarem a plataforma para fins pessoais ou políticos, sem supervisão adequada.

Repercussão institucional

A revelação do mau uso do Córtex gerou forte repercussão no meio jurídico e político. Parlamentares da oposição cobram explicações do Ministério da Justiça e da Polícia Federal sobre as medidas adotadas para reforçar a segurança digital da ferramenta.

 Já órgãos de defesa de dados, como o Instituto Data Privacy Brasil, pedem revisão da governança do sistema, considerando os riscos de violação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Apesar das pressões, até o momento não há confirmação oficial de suspensão definitiva do Córtex, mas sim investigações internas para identificar os pontos de vulnerabilidade e quem se beneficiou do acesso criminoso.

Fragilidade de governança

O caso do Córtex evidencia o dilema brasileiro entre investir em tecnologias de vigilância e garantir mecanismos de controle e proteção de dados. Se por um lado a plataforma pode auxiliar no combate ao crime organizado, por outro sua fragilidade de governança a transformou em uma arma nas mãos das próprias facções que deveria combater.

A exposição das falhas não deve ser encarada apenas como um incidente isolado, mas como um alerta sobre os limites da centralização de dados e sobre a urgência de transparência e fiscalização.

Vigiar, controlar e perseguir

O episódio coloca o Brasil diante de uma contradição perigosa: um sistema criado para reforçar a segurança pública acabou servindo de ferramenta para grupos criminosos. O Córtex, pensado como símbolo de modernização, se transformou em um exemplo de como a falta de controle e de responsabilidade no uso de dados pode minar a própria segurança nacional.

Se nada mudar, o risco é de que o país caminhe para um cenário em que facções e agentes públicos possam usar a tecnologia não para proteger, mas para vigiar, controlar e perseguir — um verdadeiro retrocesso democrático.

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