PM não pode ser convidado para festa no Ceará. A imagem mostra uma vista aérea de uma orla urbana litorânea, com prédios altos e modernos à beira-mar.

Ceará: PM não pode ser convidado para festa

Família ameaçada de morte após convidar policiais do Raio: a face cruel do domínio de facções no Ceará. O Estado de joelhos para o crime.

O terror imposto pelo crime organizado: família pede desculpas em vídeo para salvar a vida.

O que deveria ser um momento de celebração e inocência se transformou em um pesadelo e um símbolo brutal do controle exercido pelo crime organizado em diversas áreas do Ceará.

Pedido de desculpas

Uma família, residente em um bairro dominado por facções criminosas, foi forçada a gravar um vídeo de desculpas públicas após o aniversário de uma criança ter como tema o RAIO (Comando de Policiamento de Rondas e Ações Intensivas e Ostensivas) da Polícia Militar do Ceará.

As imagens são chocantes. Ao menos deveriam ser num país sério.

O vídeo disponível nas redes sociais inicia com a festa, mostrando o bolo, as decorações e até a presença de policiais do RAIO, que são frequentemente convidados para festas de crianças admiradoras da corporação.

A cena muda drasticamente para o desespero: duas mulheres da família aparecem visivelmente abaladas, com a voz embargada, implorando por perdão e garantindo que o “erro” de convidar agentes de segurança não se repetirá.

“Me desculpa aí, eu não fiz por má intenção, foi apenas… fui convidada para o aniversário de uma criança e aconteceu, eles chegaram lá. Só que eu nunca imaginei que isso tudo poderia estar repercutindo tanto,” diz uma das mulheres, enquanto a outra afirma: “Não vai mais acontecer, me desculpe vocês aí que eu não fiz para prejudicar ninguém de vocês, eu não sou disso… me desculpa aí, não vai mais acontecer, tá?”

Divulgação Rede Social X

O pedido de desculpas é uma submissão forçada e pública a um “tribunal” paralelo imposto pela facção, que considera a presença policial no seu território como uma afronta ou traição.

A medida extrema da família, implorando pela própria vida e pela segurança dos seus, ilustra o grau de intimidação e terror ao qual a população cearense está sujeita em áreas conflagradas.

Ceará dominado por facções

O Ceará sob o xadrez das facções: de rota do tráfico a território dividido

O episódio da família ameaçada é um reflexo direto do aprofundamento da crise de segurança pública no Ceará, onde o domínio e a disputa de poder entre facções criminosas se tornaram um fenômeno onipresente, controlando territórios, a vida social e, em alguns casos, interferindo até na política local.

Desde os anos 2000, e com uma intensificação notável a partir de 2016, o estado passou a ser um polo estratégico no mapa do crime organizado nacional. Sua posição geográfica, próxima ao litoral e servindo como porta de entrada e saída para o tráfico internacional de drogas, atraiu “franquias” de grandes organizações criminosas do Sudeste, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), que se juntaram a facções locais, como a Guardiões do Estado (GDE), na disputa por poder e rotas. O Terceiro Comando Puro é outro que marca presença no estado.

A consequência dessa guerra territorial é o alto índice de Crimes violentos letais intencionais (CVLIs), com o Ceará figurando frequentemente entre os estados mais violentos do Brasil.

No entanto, a violência vai muito além das estatísticas de homicídio:

  • Regras do Tráfico: As facções impõem um “código de conduta” nas comunidades, proibindo roubos na área, regulando o convívio social e, sobretudo, vetando qualquer aproximação dos moradores com a polícia. A quebra dessas regras resulta em punições severas, incluindo a tortura, a expulsão forçada ou a execução sumária.
  • “Toques de Recolher” e Deslocamentos Forçados: O medo é uma ferramenta de controle. Casos de bairros ou distritos que se tornam “vilarejos fantasmas”, com centenas de famílias abandonando suas casas após ameaças diretas e tiroteios, demonstram que as facções têm o poder de paralisar a vida social e forçar o êxodo.

A Sombra do Narcoestado

A influência das facções no Ceará é tão profunda que já podemos utilizar o conceito de “Narcoestado” ou, mais precisamente, de “territórios faccionados” para descrever a situação.

Embora o termo “Narcoestado” em sua definição mais estrita implique a tomada completa das instituições estatais por narcotraficantes, o que se observa no Ceará é uma erosão da soberania do Estado em nível local.

Nas periferias e comunidades sob domínio, a facção opera como um “Estado paralelo”:

  1. Justiça Paralela: Solucionam conflitos internos (o chamado “tribunal do crime”), punindo ou executando aqueles que violam suas normas.
  2. Economia Ilegal: Não controlam apenas o tráfico de drogas, mas também extorquem comerciantes e impõem “taxas de segurança” (análogas à máfia), dominando a economia informal e, por vezes, a legal.
  3. Influência Política: Investigações recentes apontam para a interferência do crime organizado em processos eleitorais, com o objetivo de eleger políticos que possam lhes garantir proteção ou facilitar seus negócios ilícitos, fechando o ciclo de domínio sobre a sociedade.

A família forçada a se desculpar por honrar a polícia é o retrato da pessoa comum, presa no meio de uma guerra que ela não escolheu.

É a prova de que, para milhões de cearenses, a segurança e a liberdade não são mais garantidas pelo Estado, mas sim pela obediência silenciosa às regras imposta por grupos criminosos.

Até onde o poder paralelo avançará antes que o Estado recupere, de fato, a totalidade do seu território e o direito à vida dos seus cidadãos?

QSL News: polícia em foco.

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