Crismes migram para o digital; a polícia está preparada?
O crime muda, a polícia fica para trás? Golpes digitais são a nova fronteira no combate ao crime.
Análise do Anuário de Segurança Pública de 2025 mostra que a migração para o digital expõe uma fragilidade na estrutura policial e judicial, enquanto crimes no mundo físico perdem força.
Retrato em mudança
O retrato da criminalidade brasileira está mudando. Não é mais apenas uma história de roubos à mão armada em vias públicas ou arrombamentos de residências.
O crime, em uma adaptação surpreendentemente rápida, migrou para o ambiente digital, onde os riscos de captura e punição são dramaticamente menores.
Essa tendência, exposta com clareza nos dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, coloca um desafio urgente para as forças de segurança do país: a de se modernizar e repensar suas estratégias de combate ao crime em um mundo cada vez mais conectado.
A ascensão do estelionato e a queda do roubo
Enquanto a taxa de roubos diminui em todo o Brasil, o estelionato avança de forma assustadora.
Segundo o Anuário, em 2024, as polícias civis brasileiras registraram 745.333 roubos, uma queda de 15,2% em relação a 2023.
A violência nas ruas, que por muito tempo foi a principal preocupação da população, parece ter um respiro. Roubos a veículos caíram 10,4%, e roubos a transeuntes, 22,6%. Até mesmo roubos a instituições financeiras, um símbolo de audácia criminosa, tiveram uma redução de 16,6%.
A contramão desse movimento está no mundo dos golpes e fraudes online.
Em 2024, foram registrados 2.166.552 estelionatos, um aumento de 7,8% na taxa em relação ao ano anterior. Isso significa que, a cada minuto, mais de quatro golpes são aplicados no Brasil.
Apenas em estelionatos por meio eletrônico, que muitos estados ainda têm dificuldade em categorizar, houve um crescimento de 17%.
A disparidade é ainda mais gritante quando analisamos as taxas por 100 mil habitantes. A média nacional de estelionato é de 1.019,2 por 100 mil habitantes, mas em São Paulo essa taxa sobe para 1.744,0, superando a média nacional em 71,1%.
O Distrito Federal segue a mesma linha, com 1.681,3 casos por 100 mil, 65% acima da média do país. Essa diferença entre roubos e estelionatos não é apenas uma estatística, é um sintoma da nova fronteira do crime.

Sensação de impunidade
A impunidade, infelizmente, se tornou a regra no universo dos crimes digitais. A investigação de estelionatos é complexa e exige um alto nível de especialização e tecnologia que, na maioria das vezes, as polícias civis e militares não possuem.
Segundo Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), “o risco de ser punido pelo cometimento de um estelionato é muito baixo e, quando o autor é identificado, no máximo ele irá repor o prejuízo causado e não será sancionado penalmente”5.
A situação foi agravada por mudanças legislativas. Em 2019, o chamado “Pacote Anticrime” transformou o estelionato em crime de ação penal pública condicionada à representação do ofendido, com poucas exceções.
Isso significa que, em muitos casos, o Ministério Público só pode agir se a vítima manifestar formalmente o interesse na persecução penal em até seis meses.
Essa medida transfere o ônus da justiça para a vítima, que muitas vezes não tem condições emocionais ou conhecimento técnico para seguir em frente. O anuário aponta que, em 2024, o Poder Judiciário lidou com apenas 2,4% dos casos de estelionato registrados nas delegacias, evidenciando o funil de impunidade7.
Celulares: um termômetro da nova criminalidade
Os roubos e furtos de celulares são um exemplo perfeito da migração do crime. O Anuário revela que, enquanto os roubos de celulares caíram 33,2% em números absolutos entre 2018 e 2024, os furtos aumentaram 9,5% no mesmo período.
O aparelho, uma vez roubado, segue uma cadeia de exploração criminosa que se estende por diversos países. O anuário, por meio de entrevistas com investigadores, mostra que muitos desses celulares são enviados para a África e a Ásia, onde as redes de telecomunicação não monitoram o IMEI (International Mobile Equipment Identity), o número único de cada aparelho.
As quadrilhas que atuam na receptação e exportação de celulares, que inclusive teriam “acordo de cavalheiros” com facções como o PCC, aproveitam a baixa fiscalização para movimentar a mercadoria.
Em meio a esse cenário, é importante destacar que a capacidade de recuperação de celulares pela polícia ainda é muito baixa.
Para cada 12 aparelhos roubados ou furtados, apenas um é recuperado, na média das unidades federativas que fornecem esses dados. A devolução para os proprietários é ainda mais rara, mostrando a necessidade de integração entre as bases de dados das polícias, operadoras e outros órgãos para que o sistema de justiça seja, de fato, efetivo.
O crime como negócio
O Anuário de 2025 mostra que as organizações criminosas se tornaram entidades sofisticadas, que diversificam suas fontes de receita para além das drogas e armas.
O estelionato e os golpes virtuais são uma prova disso. A ausência de uma resposta policial e judicial à altura permite que esses novos mercados criminais prosperem com a exploração das vulnerabilidades digitais da população.
Apesar dos investimentos na área de segurança pública — os municípios, por exemplo, aumentaram em 58,2% seus gastos no último quadriênio—, a sociedade continua refém do medo e da insegurança.
A queda de crimes nas ruas pode ser um indicador positivo, mas não pode ocultar a ascensão de uma criminalidade mais complexa e, por isso, ainda mais invisível e impune.
Afinal, se o crime se reorganiza e explora as fragilidades do sistema, quais as políticas públicas que estão ocorrendo para fornecer às polícias condições para se reinventarem e protegerem o cidadão nessa nova era digital?
QSL News: polícia em foco.

















