Brasil perdeu 30 mil policiais-Cerimônia de formatura da Polícia Civil, com grande grupo de agentes uniformizados em auditório iluminado e decoração institucional.

Mortalidade policial: Brasil perde mais de 30 mil policiais

Brasil perdeu 30 mil policiais em uma década: um Estado que definha na segurança.

Entre 2013 e 2023, o Brasil registrou uma queda considerável no efetivo das polícias — especialmente das Polícias Militares — com perdas de vidas que já ultrapassam 30 mil em mortalidade policial.

Ao mesmo tempo, as Polícias Civis e Perícias Criminais também enfrentam retração, embora em menor escala.

Esse encolhimento revela não apenas negligência institucional, mas um risco emergente de esvaziamento da capacidade do Estado de garantir segurança, exercer o monopólio da força e conter o narcotráfico.

Ciclo completo de polícia-A imagem é uma montagem mostrando, de costas, diferentes agentes das forças de segurança pública brasileiras. Da esquerda para a direita aparecem uniformes identificados como: Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Científica, Polícia Federal, Polícia Penal e Polícia Rodoviária Federal (PRF).
Montagem A Gazeta

O que dizem os números do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

  • O efetivo da PM caiu 6,8% no Brasil no período de dez anos, de cerca de 434,5 mil para 404.871 PMs.
  • Em São Paulo, a queda foi mais intensa: 8,9% de redução do efetivo da PM estadual.
  • Polícia Civil + Peritos criminais também perderam efetivo — a queda é menor (cerca de 2%) mas sim expressiva, dado que a PC já vinha operando com déficits de pessoal e investigação.
  • Atualmente, há aproximadamente 404.871 PMs, 95.908 civis e 17.991 peritos criminais.
  • O país possui um efetivo previsto para as PMs muito maior — cerca de 584.462 vagas — mas só ~69,3% dessas vagas estão preenchidas.

O custo da baixa de efetivo

  • Enfraquecimento do policiamento ostensivo: com menos PMs ativos, há menor presença policial preventiva. Isso reduz capacidade de patrulha, acompanha menos ocorrências, aumenta tempo de resposta a chamados.
  • Distorção de função: policiais que permanecem acabam acumulando tarefas além do esperado — horas extras, sobrecarga operacional e uso em atividades administrativas ou de apoio, em vez de atuação nas ruas.
  • Inquéritos atrasados e investigação fragilizada: com menos policiais na Civil e nas perícias, a investigação de crimes (roubo, furto, homicídio) sofre atrasos. Delegados respondendo por mais de uma comarca ou fechando plantões noturnos são consequências práticas.
  • Impacto simbólico e de autoridade: quando o cidadão percebe que delegacias fecham mais cedo, que há poucos agentes para atender ocorrências, a sensação de impunidade cresce. E isso favorece o discurso de facções criminosas, que se aproveitam do vácuo estatal para ganhar terreno.

Salários, custos fiscais e dilemas políticos

  • O salário médio dos policiais ativos está em torno de R$ 9.000, quase o dobro do funcionalismo geral — estimado em cerca de R$ 5.000. Para os inativos, a média sobe para R$ 11.000 contra ~R$ 6.000 dos demais servidores públicos.
  • As folhas de pessoal ativos + inativos das polícias respondem por 23% dos gastos com pessoal dos estados. Esse custo elevado dificulta reposições — ou seja, não é apenas questão de número de concursos, mas de espaço fiscal.
  • Em São Paulo, por exemplo, nota-se um déficit estimado em 14,9% para a PM e 35% para a Polícia Civil. Há concursos autorizados (cerca de 5,6 mil) e previsão de empossar novos agentes (~4.689 novos policiais), mas ainda assim o Estado afirma que será difícil suprir totalmente esse déficit.

O Envelhecimento

  • Um dado entregue pelo estudo é o envelhecimento dos quadros de delegados: poucas entradas recentes. Por exemplo, em algumas unidades da federação, mais de 30% dos delegados têm mais de 26 anos de carreira.
  • Isso reduz a capacidade de inovação, adoção de novos procedimentos, novos métodos investigativos. Profissionais que poderiam renovar práticas acabam se aposentando ou saindo, sem substituição adequada.

Fortalecimento do crime

Este encolhimento institucional, com déficit de efetivo, custo alto para reposições e problemas de valorização, ajuda a construir condições propícias para que organizações criminosas se fortaleçam.

Sem polícia suficiente, bem equipada e motivada:

  • Facções armadas ocupam espaços onde o Estado está ausente ou timidamente presente.
  • Violência ganha terreno, como mostram dados de letalidade policial ou abandono de investigações.
  • A criminalidade se organiza em redes mais sofisticadas, cujas ações encontram menos resistência institucional.

O narcoestado não precisa emergir plenamente para causar estragos; já há manifestações parciais: disputas por territórios periféricos, tráfico consolidado em muitos locais, e uma população que angaria medo e resignação diante da sensação de que “o Estado não chega”.

Possíveis soluções

  • Concursos públicos urgentes com previsão orçamentária garantida para o próximo decênio, amortizando defasagens anteriores.
  • Reestruturação de carreira: planos de carreira claros, remuneração compatível com risco, benefícios que estimulem permanência e não apenas ingresso.
  • Valorização da Polícia Civil e Perícias para que investigação, perícia, medidas forenses não sejam gargalos no sistema de segurança.
  • Avaliação realista do efetivo ideal por estado, baseada em densidade populacional, extensão territorial, criminalidade local — não apenas número bruto.
  • Priorizar modelo de segurança integrado: PM, PC, PF, inteligência devem trabalhar com articulação, compartilhando informações e evitando desperdício institucional.

O estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública lança um sinal vermelho: as perdas de efetivo policial em uma década indicam que a estrutura de segurança pública está sendo corroída por dentro. 30 mil policiais é um número expressivo em um país assolado por facções.

 Menos PMs, Civis e Peritos criminais significa menos policiamento, menos investigação, menos resposta estatal — todas peças essenciais para conter o crime organizado.

Sem mudança estrutural, o Brasil corre o risco de ver seu narcoestado se consolidar não apenas nas periferias, mas no país como um todo.

QSL News: polícia em foco.

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