Quando a farda vira alvo-Policiais perfilados em homenagem diante de bandeira do Brasil a meio-mastro, com quepe e insígnia sobre memorial em dia nublado.

Quando a farda vira alvo

Policial de farda é alvo: a rotina de ameaças e ataques contra quem defende a sociedade

No Brasil, o policial vive sob risco constante — não só durante operações ou no serviço ativo, mas também fora de serviço.

A execução de agentes policiais em emboscadas, ataques surpresa e assassinatos vem crescendo em volume e gravidade. O caso do ex-Delegado Geral de São Paulo não é novidade. É estatística.

Números de uma realidade alarmante

  • Em 2024, 205 agentes de segurança pública morreram de forma violenta no Brasil, o que representa um aumento de 6,7% em comparação com 2023.
  • Segundo o ObservaDH (do Ministério dos Direitos Humanos), em 2023, houve aproximadamente uma morte violenta de agente de segurança a cada dois dias no país.
  • Dados do Instituto Monte Castelo mostram que, em 2023, 141 policiais em serviço ativo foram assassinados — 119 PMs, 21 policiais civis e 1 policial federal.
  • Um estudo acadêmico da Universidade Federal do Pará (UFPA) analisou policiais militares do Pará de 2011 a 2018 e concluiu que a maior parte das mortes fora de serviço ocorreu em locais periféricos, durante folgas, geralmente motivadas por roubos que visavam armas dos policiais.

Casos emblemáticos

PM executado na Zona Oeste do Rio — Jefferson Vieira dos Santos
O 3º Sargento Jefferson Vieira dos Santos, do 5º BPM (Praça da Harmonia), foi morto a tiros quando estava de folga em Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ele estava acompanhado de outro policial, também fora de serviço, quando foram surpreendidos por criminosos que atiraram contra ele.

PM executado em frente de casa na Zona Norte de São Paulo — Rafael Rodrigues Novais
Rafael Rodrigues Novais, de 32 anos, foi morto a tiros em frente à própria residência, na Zona Norte de São Paulo. Ele estava de folga, sem uniforme, quando foi surpreendido por um atirador. As câmeras de segurança registraram o momento em que o autor se aproxima e efetua diversos disparos, incluindo quando a vítima já estava caída. O Dia

PPF executado saindo de casa em Cascavel-PR

O agente federal Alex Belarmino Almeida Silva foi executado em 2 de setembro de 2016, na cidade de Cascavel (PR), com 23 tiros, em uma emboscada que, segundo investigações da Polícia Federal, foi ordenada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) como forma de intimidação ao Sistema Penitenciário Federal

PPF executado na folga em Mossoró-RN

Henry Charles Gama Filho, morto em abril de 2017 em Mossoró (RN) durante um dia de folga, foi alvo de plano meticuloso: investigações apontam que sua execução foi planejada desde 2014, com coleta de informações, participação de pessoas próximas (empregada) e coordenação pela facção Primeiro Comando da Capital

Fatores de vulnerabilidade

  1. Narcoestado intimidador

As facções criminosas que já dominam territórios em vários estados brasileiros, utilizam as execuções como meio de intimidar a força policial.

  1. Exposição visível
    Policiais de farda têm identificação clara; isso facilita o reconhecimento por criminosos. Em operações ou patrulhamentos em comunidades dominadas por facções, isso pode torná-los alvo de emboscadas.
  2. Momento de fragilidade
    Fora de serviço ou em deslocamentos, o policial não dispõe da retaguarda operacional (viatura, reforço), o que reduz sua capacidade de reação.
  3. Instrumento de oportunidade
    Em muitos casos, criminosos atacam para roubar a arma do policial. Em estudos no Pará, o latrocínio — roubo seguido de morte — costuma envolver a intenção de tomar a arma ou equipamento.
  4. Estrutura deficiente de prevenção e proteção
    Poucos ou falhos protocolos de proteção fora do serviço, pouca escolta ou vigilância pessoal em momentos vulneráveis, falta de políticas de segurança específicas para agentes fora do expediente.

Consequências físicas, psicológicas e institucionais

  • Perda de vidas: além do agente, há impactos psicológicos profundos nos familiares e nos colegas de farda.
  • Traumas: policiamento sob ameaça constante gera estresse, ansiedade e pode levar a transtornos mentais — inclusive suicídio. ObservaDH aponta que agentes de segurança têm taxas maiores de suicídio do que a média da população.
  • Desmotivação e desgaste institucional: o policial pode passar a ver o serviço como risco inevitável, o que influencia desde a eficiência até a retenção no trabalho.

Políticas para barrar

  1. Política criminal
    Maior firmeza estatal no combate às facções. Fim da leniência do judiciário com criminosos. Legislação penal mais dura.
  2. Políticas de proteção fora de serviço
    Programas para garantir deslocamentos mais seguros, modo reserva de equipamento, orientação e treinamento sobre vulnerabilidades fora do expediente.
  3. Melhoria de inteligência e operações preventivas
    Identificar áreas de risco elevado de emboscadas e preparar operações de patrulhamento preventivo.
  4. Suporte psicológico e institucional contínuo
    Assistência para policiais e suas famílias antes e depois de incidentes; políticas de saúde mental e prevenção do suicídio.
  5. Valorização e reconhecimento
    Reconhecer o risco que o policial corre em folga ou serviço, com legislação que amplie proteção, benefícios e infraestrutura de segurança.

Estado precisa agir

Ser policial no Brasil deixou de ser apenas exercer uma função de segurança para tornar-se também estar em posição de alvo constante.

A estrutura criminosa, o descuido institucional, e os momentos fora de serviço expõem o agente a riscos que ferem não só o profissional, mas toda a sociedade, pois quando quem deveria proteger torna-se vítima, todos perdem.

Para romper esse ciclo, o Estado brasileiro precisa atacar as facções de frente. Ou isso acontece, ou policiais continuarão a ser executados e o Narcoestado se fortalecendo,

QSL News: polícia em foco.

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