Governança criminosa no Brasil: estudo da Cambridge revela que quase um em cada quatro brasileiros vive sob regras impostas por facções.
Estudo inédito mede o alcance do poder paralelo na América Latina.
Um artigo publicado na revista Perspectives on Politics, da Cambridge University Press, trouxe dados inéditos sobre a chamada “governança criminal” na América Latina.
Normas de convivência
O estudo, assinado por Andrés Uribe, Benjamin Lessing, Noah Schouela e Elayne Stecher, analisou informações do Latinobarómetro de 2020 para estimar quantas pessoas vivem em áreas onde facções ou grupos armados não apenas praticam crimes, mas também impõem normas de convivência, restringem comportamentos e controlam o cotidiano da população.
O levantamento conclui que 14% dos latino-americanos estão sob esse tipo de domínio, o que equivale a entre 77 e 101 milhões de pessoas. No caso do Brasil, os dados impressionam ainda mais: cerca de 23% da população relatou viver em comunidades controladas por organizações criminosas. Em números absolutos, isso representa quase 48 milhões de brasileiros sob regras impostas por facções.
Governança criminal
Diferente da simples presença de grupos criminosos, o conceito de “governança criminal” usado no artigo envolve situações em que facções assumem o papel de autoridade local. Isso inclui desde “prover segurança” até “impor ordem” ou “reduzir crime”, de acordo com as respostas coletadas pelo Latinobarómetro.

Ou seja, não se trata apenas de violência ou extorsão: a governança criminosa envolve um paralelo de poder com o Estado, onde grupos armados definem horários de circulação, regras de convivência, punições internas e até influenciam eleições. Para os autores, essa forma de controle social mostra como o crime organizado ultrapassa a esfera econômica e se transforma em um ator político-informal dentro de territórios.
Brasil é líder
Entre os 18 países pesquisados, o Brasil aparece entre os que têm maior proporção da população vivendo sob governança criminosa. Segundo o artigo, aproximadamente um em cada quatro brasileiros afirmou que grupos criminosos em sua comunidade “provêm ordem, melhoram a segurança ou reduzem o crime”.
Esse percentual supera a média regional de 14% e coloca o país como um dos epicentros da criminalidade organizada na América Latina. Embora o estudo não detalhe a distribuição por estados, ele ressalta que a magnitude do problema no Brasil está diretamente ligada à presença de facções de grande porte, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), que já possuem alcance nacional.
Contraste regional
Os dados mostram diferenças marcantes entre os países. Enquanto algumas nações reportaram índices abaixo de 10%, outras, como México, Honduras e Brasil, ultrapassam a barreira dos 20%.
Esse contraste, segundo os autores, se explica por uma combinação de fatores: fragilidade do Estado, presença de facções enraizadas nos presídios, desigualdade social e ausência de políticas públicas eficazes em áreas periféricas.
Na prática, isso significa que milhões de latino-americanos recorrem mais a facções do que às forças de segurança oficiais quando buscam resolver conflitos ou garantir algum tipo de proteção. O estudo aponta que esse fenômeno fragiliza ainda mais a confiança no Estado e alimenta um ciclo de dependência do poder paralelo.
Metodologia e limites
Os pesquisadores utilizaram dados do Latinobarómetro, pesquisa de opinião realizada em 18 países da região. A base metodológica consistiu em perguntar aos entrevistados se havia grupos criminosos em sua comunidade e, em caso afirmativo, quais eram suas ações.
As respostas que indicavam “imposição de ordem” ou “melhoria da segurança” foram classificadas como casos de governança criminal.
Os próprios autores alertam que o levantamento pode sofrer limitações, como subnotificação por medo de represálias ou interpretações variadas sobre o que significa “ordem” ou “segurança” em cada contexto. Ainda assim, a pesquisa é considerada pioneira ao quantificar de forma comparável a presença desse fenômeno em toda a região.
Até em zonas rurais
O estudo não entra em políticas públicas específicas, mas seus resultados reforçam um diagnóstico já conhecido: o Estado brasileiro perde espaço para facções em grandes áreas urbanas e até em zonas rurais. Quando 23% da população diz viver sob normas impostas pelo crime, o alerta é claro de que não se trata apenas de um problema de segurança, mas também de soberania e legitimidade institucional.
Especialistas consultados em reportagens sobre o tema observam que esse tipo de governança criminosa tende a se consolidar onde o poder público é ausente ou ineficiente. Assim, as facções ocupam o vácuo, oferecendo “serviços” e impondo normas — uma lógica que aumenta o poder de intimidação e dificulta a retomada do controle estatal.
O Estado fora do poder
O artigo da Cambridge University Press traz evidências sólidas de que o Brasil enfrenta uma crise profunda de governança, com quase um quarto de sua população submetida a regras ditadas por facções criminosas.
Os números não são apenas estatísticas: representam milhões de brasileiros que vivem em áreas onde o Estado deixou de ser a principal referência de ordem e segurança.
A “governança criminosa” parece seguirá sendo uma realidade cotidiana para dezenas de milhões de brasileiros.
Leia o artigo:
Uribe, Andrés; Lessing, Benjamin; Schouela, Noah; Stecher, Elayne. Prevalence and Correlates of Criminal Governance in Latin America. Perspectives on Politics. Cambridge University Press, 2024. Disponível em: Cambridge.org.
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