Comissão Especial da PEC-Fachada do Congresso Nacional em Brasília, com as duas torres do edifício ao centro e as cúpulas do Senado (à esquerda) e da Câmara dos Deputados (à direita), sob céu azul com nuvens.

Comissão Especial da PEC da Segurança é formada

Comissão Especial da PEC da Segurança é instalada na Câmara e críticas ganham força.

A Câmara dos Deputados instalou em 10 de setembro de 2025 a comissão especial que irá analisar a chamada PEC da Segurança (PEC 18/2025).

O movimento marcou o início da tramitação de uma proposta que o governo federal apresenta como marco histórico para estruturar e fortalecer o sistema de segurança pública no Brasil.

Porém, ao mesmo tempo em que é vista como prioridade política do Palácio do Planalto, a PEC enfrenta um volume considerável de críticas vindas de especialistas, governadores, entidades policiais e setores da oposição.

Estrutura da comissão

A comissão especial foi composta por 34 parlamentares e teve definida sua mesa diretora já na sessão de instalação. O deputado Aluísio Mendes (Republicanos/MA) foi eleito presidente.

A vice-presidência ficou dividida entre João Alberto Fraga Silva (PL/DF) como 1º vice, Ismael Alexandrino Júnior (PSD/GO) como 2º vice e Adriana Sauthier Accorsi (PT/GO) na 3ª vice-presidência. O cargo de relator coube ao deputado José Mendonça Bezerra Filho (União/PE), conhecido como Mendonça Filho.

O prazo para apresentação de emendas é de dez sessões, contadas a partir da instalação. A próxima reunião foi marcada para o dia 16 de setembro, dando início ao debate formal sobre o conteúdo do texto.

Comissão Especial da PEC da Segurança é formada - Audiência pública na Câmara dos Deputados com cinco homens sentados à mesa, incluindo um oficial militar, discutindo tema relacionado à segurança pública. Participantes no plenário acompanham a sessão, enquanto um telão ao fundo exibe a imagem ampliada de um dos presentes.
Foto Câmara dos Deputados Divulgação

O que a PEC propõe

A chamada PEC da Segurança tem como objetivo incluir no texto constitucional dispositivos que tratam da “defesa social”, da integração entre forças policiais e da criação de planos e fundos nacionais para financiar políticas públicas na área. Entre os pontos mais destacados estão:

  • Integração e coordenação entre Polícia Federal (PF), Polícia Rodoviária Federal (PRF), polícias civis e militares estaduais, além de guardas municipais;
  • Reforço do conceito de defesa social, ampliando a responsabilidade do Estado sobre a proteção dos cidadãos;
  • Fundos constitucionais voltados ao financiamento de ações de segurança pública;
  • Planos nacionais para orientar políticas integradas entre União, estados e municípios.

Segundo seus defensores, a proposta cria um marco jurídico sólido para que a segurança pública deixe de ser conduzida apenas por medidas pontuais e passe a contar com planejamento estruturado de longo prazo.

As críticas que cercam a proposta

Se por um lado a PEC é celebrada como passo importante, por outro acumula questionamentos de peso. As principais críticas podem ser divididas em quatro grandes blocos:

  1. Superficialidade – Pesquisadores apontam que a PEC apenas constitucionaliza práticas já existentes, sem inovar de fato. Problemas estruturais como desigualdade social, marginalização e falta de investimentos em prevenção continuam sem solução.
  2. Centralização do poder – Governadores, especialmente de estados de oposição, temem perda de autonomia. Para eles, a PEC fortalece em excesso o papel da União, reduzindo a margem de manobra das gestões estaduais sobre suas próprias polícias.
  3. Falta de diálogo com a base policial – A Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) critica duramente a ausência de escuta às categorias. Para a entidade, a proposta ignora demandas históricas de valorização, meritocracia e formação especializada, além de deixar de lado investimentos concretos em tecnologia e inteligência.
  4. Risco de viés punitivo – Especialistas lembram que o termo “defesa social” tem carga ideológica associada a políticas de repressão e encarceramento. O receio é que o conceito, ao ser incorporado na Constituição, fortaleça estratégias de endurecimento penal em detrimento de medidas preventivas e sociais.

Prós e contras da PEC da Segurança

Para entender melhor os argumentos em disputa, o quadro abaixo resume os principais pontos destacados por defensores e críticos:

AspectoDefensores dizem que…Críticos argumentam que…
Inovação / conteúdoDá base constitucional à segurança, criando marco jurídico sólido.É superficial e repete práticas já existentes.
Integração entre forçasPromove cooperação nacional entre PF, PRF, polícias estaduais e guardas.Pode levar à centralização excessiva e enfraquecer a autonomia dos estados.
Defesa socialReforça dever do Estado em proteger cidadãos.Retoma ideologia punitiva, priorizando repressão.
Recursos e planejamentoFundos e planos nacionais podem garantir financiamento estável.Sem execução eficaz, risco de se tornar letra morta.
Valorização das políciasReconhece importância das corporações.Não trata de carreira, formação ou salários.
Democracia e controle socialAumenta transparência com novos mecanismos de supervisão.Falta diálogo com categorias e risco de controle por órgãos não eleitos.
Legitimidade políticaMostra compromisso do governo em enfrentar o crime organizado.Pode ser usada como bandeira eleitoral, sem impacto real.
Impacto esperadoAvanços podem surgir no médio e longo prazo.Efeitos práticos serão lentos e pouco sentidos pela população.

Um debate que promete se arrastar

A instalação da comissão especial é apenas o primeiro capítulo de uma discussão que promete ser extensa. Com prazo curto para apresentação de emendas e divergências já explícitas entre governo, oposição e categorias policiais, a PEC da Segurança não deverá ter tramitação tranquila.

O relator Mendonça Filho terá papel central na tentativa de construir consensos. A depender do texto final apresentado, a proposta poderá seguir como bandeira política do governo federal ou se tornar mais um ponto de desgaste entre União e estados.

Proteger vidas, garantir direitos

A criação de uma PEC voltada especificamente para a segurança pública reflete a dimensão do problema no Brasil. O tema, historicamente, é alvo de promessas eleitorais e projetos fragmentados, mas raramente resulta em políticas de longo prazo consistentes.

A Polícia Civil de Minas Gerais, a Polícia Federal, as guardas municipais ou qualquer corporação do setor carregam histórias de luta, de avanços e de limitações impostas por crises orçamentárias e disputas políticas.

Independentemente da tramitação da PEC, a importância da segurança pública reside em seu caráter essencial para a cidadania: proteger vidas, garantir direitos e assegurar que o Estado esteja presente onde a sociedade mais precisa. É nesse ponto que o debate em torno da PEC deve se concentrar, sob risco de que mais uma vez se perca a chance de avançar de forma concreta em uma área vital para o futuro do país.

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