Traficantes expulsam operários e paralisam obra da Clínica da Família do Vidigal.
Saúde pública sob ameaça direta do narcoestado.
O Rio de Janeiro voltou a viver nesta semana mais uma cena que expõe a força do crime organizado sobre o cotidiano da cidade. Na manhã de terça-feira (9), homens armados expulsaram operários que trabalhavam na construção da futura Clínica da Família do Vidigal, na Zona Sul.
O prédio pertence ao tráfico
A obra, que deveria atender uma demanda histórica dos moradores da comunidade, foi suspensa sob a alegação dos criminosos de que “o prédio pertence ao tráfico”.
A ação foi confirmada pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS), que anunciou ter registrado ocorrência na Polícia Civil e que pedirá apoio das forças de segurança para tentar retomar a construção. O episódio foi revelado inicialmente pela colunista Berenice Seara e confirmado pelo jornal O Globo. O narcoestado na sua plenitude.

Prefeitura reage, polícia promete investigação
A SMS informou que o boletim de ocorrência foi feito online e encaminhado para a 15ª DP (Gávea). A Polícia Civil declarou que instaurará inquérito para identificar os responsáveis pela intimidação e verificar a ligação da facção criminosa com o episódio.
Paralelamente, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Vidigal disse ter entrado em contato com a prefeitura, garantindo que há segurança para a continuidade da obra
Apesar das denúncias, o presidente da Associação de Moradores do Vidigal, Mazola Faria, divulgou nota negando que tenha havido interferência de traficantes.
De obra do crime a clínica de saúde
O imóvel em questão tem uma história peculiar. Originalmente erguido de forma irregular pelo tráfico, o prédio de dez andares foi embargado pela prefeitura em 2023. Com base em decreto municipal que permite dar função social a imóveis construídos por organizações criminosas, a atual gestão decidiu transformá-lo em uma clínica da família.
A reforma, orçada em R$ 6 milhões, já demoliu metade dos pavimentos, adequando o edifício às normas urbanísticas, que só permitem prédios de até cinco andares na região. A meta é concluir a obra até 2026, oferecendo estrutura com seis equipes de Saúde da Família, oito consultórios, sala de acompanhamento ambulatorial e até exames de ressonância magnética.
Um sonho antigo dos moradores
A comunidade do Vidigal, com cerca de 11,3 mil habitantes, só conta hoje com o Centro Municipal de Saúde Rodolpho Perissé, inaugurado em 1981, quando o número de moradores era menos da metade do atual. Sobrecarregado, o posto já não consegue atender adequadamente toda a população.
A nova unidade de saúde é reivindicação antiga: em 2023, moradores chegaram a organizar um abaixo-assinado cobrando a construção. Durante a campanha eleitoral de 2024, o prefeito Eduardo Paes prometeu a entrega da clínica como forma de “ressignificar” o imóvel do tráfico, convertendo-o em benefício para a população.
Interferência sistemática do crime em obras públicas
Este não é um caso isolado. A infiltração de facções e milícias em projetos públicos no Rio vem se repetindo. Em 2023, criminosos exigiram R$ 500 mil de propina para liberar a construção do Parque Piedade, na Zona Norte. Na Rocinha, foi necessária uma força-tarefa para demolir três prédios erguidos pelo tráfico, avaliados em R$ 6 milhões.
No Complexo da Maré, investigações revelaram que o Comando Vermelho financiava a construção de 40 prédios ao custo de R$ 30 milhões, comercializados como se fossem parte do mercado formal. A prática de cobrar “taxas de segurança” de empreiteiras virou rotina e, em alguns casos, até com emissão de nota fiscal.
Vidigal: turismo e abandono
O contraste do Vidigal é marcante: enquanto recebe cerca de 1 milhão de turistas por ano, superando atrações como o Pão de Açúcar, sua população vive com uma única unidade de saúde precária. A favela, com 4,4 mil domicílios e dois colégios, ainda convive com forte presença do tráfico e disputas pelo espaço urbano.
A clínica, que poderia simbolizar a vitória do interesse público sobre o domínio do crime, agora é o mais recente palco do confronto entre o Estado e organizações criminosas.
Ponto de não retorno
O episódio do Vidigal não pode ser tratado como um fato isolado. Ele mostra a escalada de poder de facções criminosas capazes de expulsar operários de uma obra pública no coração da Zona Sul carioca. A cena simboliza que o Estado brasileiro já perdeu a soberania sobre partes do território.
Se antes o tráfico limitava-se ao comércio de drogas, hoje financia construções, impõe regras urbanísticas próprias, cobra pedágios de empreiteiras e dita o ritmo do que pode ou não ser erguido dentro das favelas. Enquanto isso, a população fica sem saúde, sem educação e sem segurança.
A expulsão de operários de uma clínica de saúde não é apenas um atentado contra a prefeitura ou contra um projeto específico: é a prova de que o Brasil já ultrapassou o ponto de não retorno rumo à consolidação de um narcoestado, no qual o crime organizado substitui o poder público e define a vida de milhares de cidadãos.
QSL News: polícia em foco.

















