Milícia 5G: como grupos criminosos lucram com internet clandestina nas comunidades
No Rio de Janeiro e em outras capitais brasileiras como Fortaleza, o crime organizado encontrou um filão altamente lucrativo e de baixo risco: a venda de internet clandestina em favelas e bairros dominados.
Negócio Milionário
O serviço da chamada Milícia 5G, que começou como uma rede improvisada de cabos puxados de postes, virou um empreendimento milionário controlado por milicianos e facções do tráfico.
Os moradores, muitas vezes sem acesso a operadoras regulares ou submetidos a intimidações, são obrigados a contratar pacotes piratas, com valores que variam de R$ 70 a R$ 120 por mês. Sem nota fiscal, sem contrato formal, sem direito a reclamar.
O cartel da banda larga
Investigações recentes do Ministério Público e da Polícia Civil apontam que essas quadrilhas estruturaram verdadeiros cartéis de telecomunicações. Em várias comunidades, empresas legalizadas de internet são impedidas de atuar: vans e técnicos que tentam instalar serviços oficiais são expulsos sob ameaça de armas.
Na prática, os grupos criminosos substituem o Estado e as empresas privadas na oferta de conectividade.
Tecnologia a serviço do crime
Não se trata mais apenas de cabos clandestinos. Os criminosos operam redes complexas, com antenas, roteadores e centrais de distribuição. Há relatos de torres de transmissão instaladas em topos de prédios erguidos ilegalmente, com equipamentos de alta potência adquiridos no mercado formal.
Essas redes fornecem conexão para milhares de residências, bares, salões de beleza, lan houses e até para comércios que, por sobrevivência, aceitam se associar ao sistema paralelo. O dinheiro arrecadado financia armas, veículos e fortalece o domínio territorial dos grupos.

O silêncio imposto
Para os moradores, não há escolha. Quem tenta contratar uma operadora reconhecida pode sofrer represálias. Em muitos locais, o simples ato de pedir à companhia telefônica a instalação de fibra ótica já é considerado traição ao “negócio da comunidade”.
As denúncias são raras. Poucos arriscam registrar ocorrência, já que a polícia, por vezes, também tem dificuldade em entrar nesses territórios. Quando há ações repressivas, as estruturas são desmontadas e, em questão de dias, reinstaladas — como se o crime tivesse autorização informal para operar.
Impacto social
A ilegalidade traz prejuízos múltiplos. Sem regulação, a qualidade do serviço é instável. Estudantes perdem aulas online, trabalhadores em home office ficam sem conexão, empresas locais não conseguem manter operações digitais. Além disso, a fuga de tributos priva o Estado de milhões em arrecadação, enquanto o crime arrecada mensalmente fortunas não rastreáveis.
E mais: ao controlar o acesso à internet, as milícias e facções ampliam seu poder de monitorar o comportamento da comunidade, podendo até decidir quais comércios terão prioridade de rede ou quem merece ser desconectado.
A dificuldade do Estado em reagir
Operações policiais já fecharam provedores clandestinos em comunidades da Zona Oeste do Rio e da Baixada Fluminense. Em algumas ocasiões, centenas de quilômetros de cabos foram apreendidos, além de servidores e antenas. Mas a repressão isolada não resolve: sem presença permanente do Estado, as redes ilegais retornam rapidamente.
O problema exige ação coordenada: polícia, agências reguladoras e empresas de telecomunicação precisam atuar juntas. Sem infraestrutura oficial acessível e segura, o espaço continuará sendo ocupado por quem impõe suas regras na marra.
Um narcoestado digital?
Se antes o crime controlava transporte alternativo, gás de cozinha e TV a cabo clandestina, agora domina também a internet — a espinha dorsal da vida moderna. Não se trata apenas de um serviço paralelo, mas da tomada de um setor estratégico que afeta desde o lazer até a educação de crianças e jovens.
Esse controle revela um quadro alarmante: o crime não só governa o território físico, como também administra a porta de entrada para o mundo digital.
Quando milícias e facções podem decidir quem se conecta, a que custo e com quais condições, o Brasil dá mais um passo na consolidação de um narcoestado multifacetado — que não vende apenas drogas, mas privatiza, à força, direitos fundamentais.
E cada vez que o morador paga a fatura ao “provedor da comunidade”, um pouco mais da legitimidade do Estado escorre pelo cabo. O resultado? Um Brasil em que a milícia já não só protege ou explora: ela governa.
QSL News: polícia em foco.

















