17 de Julho: o levante que mudou a política de Alagoas
A Polícia Civil de Alagoas (PCAL) tomou um prédio ao lado da Assembléia de AL e um tiroteio com o Exército teve início.
Crise e insatisfação
Em 17 de julho de 1997, a Praça Dom Pedro II, no centro de Maceió, tornou-se palco de um dos episódios mais marcantes da história recente de Alagoas. Servidores públicos civis e militares, em número estimado de dez mil pessoas, protestavam diante da Assembleia Legislativa – protegida pelo Exército – para exigir o afastamento do então governador Divaldo Suruagy.
Nove meses de salários
O estopim foi a crise financeira do Estado, que acumulava quase nove meses de salários atrasados, mergulhando milhares de famílias em dificuldades. Supermercados passaram a racionar produtos básicos. O país recentemente saído da hiperinflação, via em Alagoas os tempos de crise de abastecimento em supermercados: famílias só podiam levar um item de cada produto. Imagine a Polícia Militar (PMAL) e a Policia Civil (PCAL) com nove meses de soldos atrasados!

O confronto e o tiroteio
A manifestação, inicialmente pacífica, se transformou em confronto quando o Exército foi chamado para reforçar a segurança da Assembleia Legislativa de Alagoas.
O Exército já estava nas ruas do Estado em Garantia da Lei e da Ordem (GLO), substituindo a Polícia Militar, que junto com os demais servidores do Estado, já estavam em greve há meses.
O que se viu foi um cenário de tensão. Jornalistas e moradores tiveram que se proteger em prédios próximos.
Polícia Civil
Com as tropas do Exército cercando a Assembleia, os manifestantes se viram impedidos de adentrar ao edifício. A Assembleia votaria o provável impeachement do Governador.
Ao lado da Assembleia fica a Biblioteca pública de Maceió, um prédio com vários pavimentos, onde alguns policiais civis se posicionaram no andar mais alto; com visão ampla e em vantagem em relação às tropas do Exército.
Livro-reportagem
O jornalista Joaldo Cavalcante, que acompanhava o episódio, relatou em seu livro-reportagem “17 de julho – a gameleira, as lembranças e a história decidida à bala” como escapou dos disparos: “No momento do tiroteio, eu me refugiei com outros profissionais para acompanhar aquele momento de tensão, porque era fogo cruzado”.
O tiroteio repercutiu em todo o país e colocou Alagoas nas manchetes nacionais e internacionais, revelando a gravidade da crise institucional.
Renúncia e intervenção federal
A pressão popular e a escalada da violência levaram Suruagy a enviar um ofício à Assembleia pedindo licença do cargo por tempo indeterminado. Pouco depois, acabou renunciando em definitivo. O vice, Manoel Gomes de Barros, assumiu o comando do Executivo.
Intervenção
Segundo registros da Assembleia Legislativa, o episódio abriu espaço para uma forte intervenção do governo federal em Alagoas. Quadros de confiança de Brasília, inclusive generais, passaram a ocupar postos estratégicos da administração estadual, como contrapartida para a renegociação da dívida pública.
Para muitos alagoanos, o levante de 1997 tornou-se um divisor de águas. Ele expôs a fragilidade fiscal do Estado, a dependência de recursos federais e a incapacidade de gestão diante de uma crise prolongada.
Trajetória de Suruagy
Divaldo Suruagy já tinha longa história política. Foi governador em três momentos: indicado em 1975, eleito em 1982 e novamente em 1994, quando obteve a maior votação proporcional para governador em todo o Brasil. No entanto, não completou esse último mandato, encerrado abruptamente pelo levante de 1997.
Suruagy faleceu em 21 de março de 2015, aos 78 anos, em Maceió. Sua trajetória é lembrada tanto pelas conquistas quanto pelo episódio que marcou sua saída do poder.
20 anos depois
Duas décadas após o confronto, em 2017, o lançamento do livro-reportagem de Cavalcante trouxe novas reflexões sobre a importância do episódio. Para além da renúncia de um governador, o 17 de Julho consolidou-se como um marco de mobilização social e como alerta sobre os efeitos da má gestão fiscal.
Mostrou a bravura da Polícia Civil de Alagoas, disposta a enfrentar o Exército em busca de seus direitos.
Para servidores e cidadãos comuns, a memória ainda é de sofrimento e resistência.
QSL News: polícia em foco.















